sábado, 10 de agosto de 2013

DO “BEIJO” QUE ELA ME DEU




DO “BEIJO” QUE ELA ME DEU



A boca dela era suja
E fedorenta demais…
Tinha os olhos de coruja,
Parecia o satanás…
Eu estava num sono quedo,
Na minha cama, bem cedo,
Ela beijou-me e correu.
Quase me apago na cama
Com a catinga de lama
Do beijo que ela me deu.

Levantei-me aperreado,
Corri doido pro terreiro,
Cuspindo pra todo lado,
Tão medonho era o mau cheiro…
Vomitei que só cadelo,
Fiquei bastante amarelo
E a fedentina cresceu…
Lavei-me até com caliça,
Mas não largou a carniça
Do beijo que ela me deu.

Quando me viu vomitando,
O cachorro lá de casa
Chegou se refestelando,
Foi mesmo que comer brasa…
Saiu rodando e latindo,
Mordendo o rabo e grunhindo…
Com poucas horas morreu,
Sem injeção nem vacina
Que curasse a fedentina
Do beijo que ela me deu.

Por confiar na ciência,
Fui correndo ao hospital.
Disse o doutor: “Paciência,
Tem que ir pra capital…”
Eu morrendo de desgosto
E o peste tapando o rosto,
Devido o mau cheiro meu…
Voltei de cabeça grossa,
Curtindo o fedor de fossa
Do beijo que ela me deu.
   
Joguei as chapas no mato,
Não usei mais as nojentas.
Do que “chinica” de gato
Ficaram mais fedorentas…
Mandei fazer outras novas,
Porém, nas primeiras provas,
O dentista adoeceu…
Pensei que fosse mandinga,
Mas vi que foi da catinga
Do beijo que ela me deu.

Já senti bafo de boca,
Só não daquela maneira.
Do beijo daquela louca
Eu não morri por besteira…
Eita que beijo infeliz!
Quase que perco o nariz,
Minha boca apodreceu…
Até duvido escapar
O infeliz que levar
Do beijo que ela me deu.

E quem quiser fazer teste,
Embora morra cuspindo,
Aceite um beijo da peste
E veja se estou mentindo.
É bom que nem pensem nisto,
Porque, se fizerem isto,
Irão sofrer como eu…
Eu vivo fedendo assim,
Por causa do cheiro ruim
Do beijo que ela me deu.

Aquela gota-serena
Me desgraçou de uma vez.
Só se eu matasse a gangrena
Ela pagava o que fez.
Escovo a boca, me deito,
Acordo do mesmo jeito,
Nada desapareceu…
Vivo fedendo a ticaca
E vou morrer da ressaca
Do beijo  que ela me deu.

                       ( Dedé Monteiro)