terça-feira, 23 de julho de 2013

À ATRIZ EUGÊNIA CÂMARA

castro Há 147 anos, o poeta Castro Alves declamava no Teatro de Santa Isabel, para sua amada Eugenia Câmara, um dia após ela ter levado uma vaia:


Hoje estamos unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!…

Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! …
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!

Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário d’arte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! …

Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!  

Ainda uma vez tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar…
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar…

Após a noite, que passou sombria,
A estrela-d’alva pelo céu rasgou…
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou…

Lutar!… que importa, se afinal venceste?
Chorar!… que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.

Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do pop’lar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.

O povo… o povo… é um juiz severo,
Maldiz as trevas, abençoa a luz…
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
- P’ra ti altares, não do poste a cruz.

Que queres? Ouve! – são mil palmas férvidas,
Olha! – é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! – são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte – coroada estás.

Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens p’ra arrogante em breve
Distante… longe… mais além voar.

 Recife, 1866.